quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Sacristão da Igreja - W. Somerset Maugham


Alber Edward Foreman, àquela tarde, auxiliara a cerimônia do batismo, na igreja de St. Peter, em Nerville Square, e ainda estava com a sua toga de sacristão.
A toga nova, com pregas perfeitas e amplas como se fossem de bronze eterno e não de alpaca, ele a guardava para os funerais e para os casamentos (St. Peter, em Neville Square, era uma igreja preferida para tais cerimônias pelas famílias da alta sociedade, e agora estava com a toga que ele classificara em segundo lugar).
Albert Edward Foreman usava a toga com tranquila satisfação, pois era um símbolo das funções que exercia, e sem ela (quando a despia para ir para casa), perturbava-lhe a impressão de não estar suficientemente vestido.
Elas exigiam-lhes muitos cuidados; ele mesmo as passava a ferro. Há dezesseis anos era sacristão daquela igreja, e tivera sucessivas togas, mas lhe era impossível jogá-las fora quando envelheciam; e a série completa, cuidadosamente embrulhada em papel pardo, jazia no fundo da gaveta do guarda-roupa, no quarto de dormir.
O sacristão movia-se silenciosamente, recolocou a tampa de madeira esmaltada sobre a pia batismal, de mármore, repôs no lugar a cadeira, trazida para uma senhora idosa e enfêrma, e permaneceu esperando que terminasse o pároco de arrumar-se na sacristia, para por tudo em ordem e voltar para casa.
Viu-o entrar no coro, fazer uma genuflexão diante do altar-mor, e dirigir-se à nave; tirara a sobrepeliz e a estola, mas ainda permanecia de batina.
-Por que andará trocando as pernas? - disse, entre dentes, o sacristão. - Não sabe que tenho de ir tomar chá?
O pároco fora promovido recentemente, homem enérgico, de rosto vermelho, com mais de quarenta anos; e Albert Edward ainda lamentava o afastamento do antecessor, padre da velha escola, que pregava calmamente com voz clara, e jantava quase sempre com os paroquianos mais aristocráticos.
Gostava que as coisas da igreja estivessem nos seus lugares, mas nunca se aborrecia por coisas de somenos; não era como este, que em tudo queria meter o bedelho. Mas Albert Edward era tolerante. St. Peter ficava num ótimo bairro e os paroquianos eram gente de bom tom.
O novo pároco viera do East End, e não era de esperar que se acomodasse imediatamente às maneiras discretas de uma congregação de fiéis aristocráticos.
É um transtorno - dizia Albert Edward - Mas, com o tempo, ele acabará aprendendo.
Quando o pároco aproximou-se pela nave o bastante para dirigir-se ao sacristão sem erguer a voz mais do que convinha em um lugar de adoração, parou.
-Foreman, venha um momento até a sacristia. Preciso falar-lhe.
-Pois não, reverendo.
O pároco esperou que ele se aproximasse e ambos se diregiram no sentido do altar.
-Foi um batizado muito bonito. Engraçado como o bebê parou de chorar quando o senhor o segurou.
-Tenho notado que quase sempre é assim - disse o pároco, com um leve sorriso. - Mas, afinal de contas, já tenho grande prática de segurar crianças.
Era para ele um motivo de orgulho, sempre reprimido, poder frequentemente sossegar as crianças que choravam, graças ao modo de segurá-las; e não deixava de perceber a manisfesta admiração com que as mães e amas o viam aninhar a criança na dobra da manga da sobrepeliz. Compreendeu logo o sacristão que ele gostava de ser cumprimentado por essa habilidade.
O pároco entrou primeiro na sacristia. O sacristão ficou um tanto surpreendido ao encontrar-se com os dois guardiães da junta paroquial. Não os vira chegar. Ambos lhe fizeram um gesto amistoso com a cabeça.
- Boa tarde, senhor lorde. Boa tarde, senhor general - disse a um, e a outro.
Eram ambos homens já idosos, e ocupavam seus postos há quase tanto tempo quanto ele, Albert Edward, era sacristão. Estavam ambos sentados à bela mesa de jantar que o antigo pároco trouxera da Itália, muitos anos atrás; e o pároco sentou-se na cadeira vaga, entre os dois guardiães. Albert Edward estava diante deles, separado pela mesa; e sentindo um vago mal-estar, tentava advinhar qual o possível tema da conversa. Lembrava-se ainda de quando o organista se vira envolvido numa complicação e dos aborrecimentos por que passaram para abafar o que acontecera.
Numa igreja como a de St. Peter, em Neville Square, um escândalo era intolerável. No rosto vermelho do pároco, havia uma expressão de resoluta benignidade; mas os outros tinham as fisionomias levemente perturbadas.
"O padre andou aborrecendo os dois", disse consigo o sacristão.
"Pediu-lhes para fazerem alguma coisa e eles não gostaram. É isso mesmo, sou capaz de garantir".
Mas os pensamentos não transpareciam nas feições nítidas e distintas de Albert Edward. Mantinha-se em atitude respeitosa, sem ser servil. Fora criado, antes de ser promovido neste cargo, mas só trabalhara em casas de tratamento, e a sua maneira de conduzir-se era irrepreensível.
Começando como menino de recados na residência de um abastado comerciante, gradualmente alcançara o posto de quarto criado a princípio ; fora durante um ano mordomo da viúva de um par; e, até que se deu a vaga na igreja de St. Peter, mordomo, com dois auxiliares, na casa de um embaixador aposentado.
Era alto, seco, grave, e digno. Se não parecia um duque, assemelhava-se pelo menos a um ator da velha escola, especializado em papéis de duque. Tinha tato, firmeza e segurança. O seu caráter era inatacável.
O pároco começou abruptamente.
- Foreman, tenho de lhe dizer uma coisa um pouco desagradável. Você está trabalhando aqui há muitos anos e estou certo que o senhor lorde e o senhor general concordam comigo que você cumpriu a contento os deveres do seu cargo.
Os dois guardiães fizeram um gesto de assentimento.
- Mas uma circunstância extraordinária chegou ao meu conhecimento, um dia desses, e julguei de meu dever participá-la aos guardiães. Descobri, com assombro, que você não saber ler nem escrever.
O rosto do sacristão não transpareceu nenhum sinal de embaraço.
- O último pároco sabia disso, reverendo - respondeu. - Disse-me que não fazia mal. Sempre estava dizendo que na sua opinião havia demasiada instrução no mundo.
- Mas isso é a coisa mais espantosa que já ouvi na minha vida - exclamou o general. - Quer dizer que foi sacristão desta igreja durante dezesseis anos e nunca aprendeu a ler e escrever?
- Comecei a trabalhar com doze anos, senhor general. O cozinheiro da primeira casa, onde me empreguei, tentou ensinar-me, uma vez, mas parece que eu não tinha muito jeito. Certo é que nunca achei falta disso. Acho que muitos moços desperdiçam o tempo lendo, quando podiam perfeitamente estar fazendo alguma coisa de útil.
- Mas não tem vontade de ler as notícias dos jornais? - Perguntou o primeiro guardião. - Nunca sente vontade de escrever uma carta?
- Não, senhor lorde, vivo muito bem assim. E, nos últimos anos os jornais vem com todas essas figuras, e eu entendo regularmente o que está sucedendo. Minha senhora é muito instruída e, quando quero escrever uma cara, ela escreve-a por mim.
Os dois guardiães fitaram os olhos aflitos no pároco, e depois na mesa.
- Bem, Foreman, discuti o assunto com estes dois senhores e eles concordaram inteiramente comigo que a situação é insustentável. Numa igreja como a de St. Peter, em Neville Square, não podemos ter um sacristão que não saiba ler e escrever.
 O rosto fino e pálido de Alber Edward enrubesceu, e ele mexeu os pés, contrafeito, mas permaneceu calado.
- Compreenda-me Foreman, eu não tenho nada contra você. Cumpre o seu trabalho de modo absolutamente satisfatório; tenho no mais alto conceito tanto o seu caráter como a sua capacidade; mas não podemos nem devemos de modo algum arriscar-nos a algum acidente que poderia acontecer em consequencia da sua ignorância, o que é lamentável. Trata-se de uma questão de prudência, assim como de princípio.
- Mas você não podia aprender, Foreman? - perguntou o general.
- Não, senhor; agora, acho que não. O senhor vê, eu já não sou moço como era e, se não podia meter as letras na cabeça quando garoto, agora acho que não há nenhuma probabilidade.
- Não queremos ser duros com você, Foreman - disse o pároco. - Mas os guardiães e eu estamos já decididos. Vamos dar-lhe três meses de prazo e, se no fim desse período você não souber ler e escrever, então terá de deixar o lugar.
Albert Edward nunca simpatizara com o novo padre. Sempre disse que tinham cometido um erro entregando-lhe a igreja de St. Peter. Não era o tipo de homem para uma congregação de fiéis de classe, como aquela. Agora, ergue um pouco o peito. Conhecia o seu valor, e não permitiria que o afrontassem.
- Desculpe, reverendo, mas creio que assim não me serve. Sou um animal muito velho para aprender coisas novas. Há tantos anos vivi sem aprender a ler e a escrever, e, sem querer me elogiar ( o elogio não se recomenda na boca do elogiado), posso dizer que cumpri o meu dever nesse estado da vida em que a Providência misericordiosa julgou de bem me colocar, e, mesmo que pudesse aprender agora, acho que não me resolveria.
- Nesse caso, Foreman, teria que deixar o lugar.
- Sim, reverendo, eu compreendo. De boa vontade apresentarei a minha demissão logo que o senhor encontre outro que me substitua.
Quando, porém, Albert Edward, com a sua delicadeza habitual, fechara a porta da igreja, depois que o pároco e os dois guardiães haviam passado, não pode manter a atitude de calma dignidade com que recebera o golpe; seus lábios agora tremeram. Voltou lentamente para a sacristia, e pendurou no cabide a toga de sacristão.
Ao pensar nos grande funerais, e nos casamentos elegantes a que assistira, não conteve um suspiro. Pôs tudo em ordem, vestiu o sobretudo, e, chapéu na mão, percorreu a nave em direção à frente. Saiu, fechou a chave a porta da igreja. Atravessou devagar a praça, mas, absorto em pensamentos tristes, não se dirigiu para a rua que ia dar à sua casa, onde o esperava uma boa taça de chá forte; seguiu um rumo errado. Caminhava lentamente. Sentia uma opressão no peito. Não sabia que fazer consigo mesmo. A idéia de voltar para o serviço doméstico lhe era desagradável. Depois de ter sido dono do seu nariz durante tantos anos (pois podiam, o pároco e os guardiães dizer o que quiserem, mas era ele quem administrava a igreja de St. Peter), dificilmente resolveria aceitar um emprego naquele ramo. Poupara uma boa soma. Não era suficiente para viver sem trabalhar. E a vida parecia estar mais cara de ano para ano. Nunca pensara que algum dia teria de preocupar-se com tais problemas. Os sacristãos da igreja de St. Peter, como os papas, eram vitalícios. Pensava sempre na grata referência que o pároco faria, durante o sermão das vésperas do primeiro domingo depois de sua morte, aos longos e fiéis serviços e ao "caráter exemplar do nosso finado sacristão, Albert Edward Foreman".
Soltou um suspiro profundo. Albert Edward era abstêmio de álcool e fumo, porém com certa reserva; pois gostava de um copo de cerveja no jantar e, quando estava cansado, fumava com prazer um cigarro.
Ocorreu-lhe agora que um cigarro havia de o confortar e, como não os trazia consigo, olhou em torno, à procura de uma casa onde pudesse comprar um maço de Gold Glackes.
Não descobriu logo nenhuma ciagarraria, e continuou caminhando. Era uma rua comprida, com toda a espécie de comércio, na qual não havia uma só casa onde se pudesse comprar cigarros.
- É interessante - disse Albert Edward.
Para certificar-se, percorreu a rua novamente, em sentido inverso.
Não; não havia dúvida. Parou e olhou, pensativo, para um lado e outro.
- Não é possível que seja eu a única pessoa que passa por esta rua e sinta vontade de fumar - disse. - Acho que uma pessoa poderia fazer-se na vida, com uma pequena tabacaria por aqui. Cigarros e doces, naturalmente.
De repente, ergueu  a cabeça.
-Está aí uma idéia - disse. É interessante como a gente se lembra das coisas quando menos as espera.
Deu meia volta, foi para casa, e tomou o chá.
- Estás tão calado esta tarde, Albert - observou-lhe a mulher.
- Estou pensando - disse ele.
Estudou a questão de todos os ângulos; no dia seguinte, percorreu a rua e, por sorte, achou um local que estava para alugar e que serviria exatamente para o seu fim.
No dia seguinte alugou-o, e, quando, daí a um mês, deixou para sempre a igreja de St. Peter, em Neville Square, Albert Edward Foreman estabeleceu-se com cigarraria e venda de jornais.
Sua mulher opinou que era uma terrível queda, depois de ter ele sido sacristão de St. Peter, mas Albert Edward respondeu que era preciso acompanhar as mudanças do tempo. A igreja não era o que fora, e daqui para diante ele ia dar a César o que era de César. Saiu-se bem.
Saiu-se tão bem que, dentro de um anos, aproximadamente, ocorreu-lhe que poderia abrir uma segunda cigarraria, e entregá-la a um preposto.
Procurou outra rua comprida, que não tivesse cigarraria e, quando a encontrou, com uma frente para alugar, montou e abriu nova casa.
Também esta foi um sucesso. Refletiu em seguida que, se podia ter duas, podia ter meia dúzia, e começou a andar através de Londres; e sempre que descobria uma rua comprida que, não tendo cigarraria, tivesse um local apropriado para alugar, montava e abria um negócio do ramo.
No fim de dez anos, fundara nada menos de dez cigarrarias e estava ganhando dinheiro à bessa.
Percorria-as pessoalmente todas as segundas-feiras, tomava a féria da semana e depositava-a no banco.
Certa manhã, quando estava depositando um maço de notas e uma pesada bolsa de moedas de prata, o caixa do bando disse-lhe que o gerente desejava falar-lhe. Introduzido no gabinete, foi recebido pelo gerente.
- Mr. Foreman, queria conversar com o senhor, sobre o dinheiro que tem em depósito aqui. Sabe exatamente a quanto monta?
- Exatamente, não senhor, mas tenho uma idéia bem aproximada.
- Afora a entrada desta manhã, o seu depósito vai um pouco além de trinta mil libras. É uma soma muito grande para permanecer em depósito. Já pensou como lhe conviria empregá-lá?
- Não desejo arriscar-me, senhor. Sei que no banco está seguro.
- Mas não precisa ter a menor preocupação. Dar-lhe-emos uma lista de títulos garantidos, que lhe proporcionarão uma taxa de juro melhor do que é possível obter aqui.
Traços de preocupação instalaram-se nas feições bem marcadas de Mr. Foreman.
- Nunca entendi nada de ações e dividendos, e teria de deixar tudo isso nas mãos do bando - disse ele.
O gerente sorriu.
- Encarregar-nos-emos de tudo. Basta o senhor assinar os papéis na próxima vez que nos visitar.
- Eu poderia fazer isso - disse Albert, com insegurança. - Mas como iria saber o que estava assinando?
- Suponho que sabe ler - disse o gerente, um pouco ríspidamente.
Mr Foreman sorriu-lhe, apaziguador.
- Pois é isso, senhor. Não sei. Naturalmente parece engraçado, mas é verdade, não sei ler, e não sei escrever, a não ser o meu nome, o que só aprendi quando me estabeleci como comerciante.
O gerente ficou tão surpreendido que se empertigou na cadeira.
- Mas é a coisa mais espantosa que já vi.
- O senhor vê, nunca tive a oportunidade de aprender, e quando a tive já era tarde demais, e então, não quis. Sou um pouco teimoso.
O gerente olhava-o com assombro, como se estivesse ante um monstro pré-histórico.
- Então quer dizer que realizou esse importante negócio e acumulou uma fortuna de trinta mil libras sem saber ler nem escrever? Meu Deus, que não seria do senhor agora, se tivesse aprendido a ler e a escrever?
- Isso eu posso dizer-lhe - respondeu Mr. Foreman, com leve sorriso nas feições sempre aristocráticas. - Seria sacristão da igreja de St. Peter, em Neville Square.

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